A pressa, o vírus e a vida como ela é.

E em poucos dias tudo se modifica. Em poucos dias todos estamos a ser convidados para estarmos presentes. Em poucos dias todos estamos parados na forma como conhecíamos o movimento.

Tenho resistido a escrever. Há como que uma “zanga-triste” premente, não pelo vírus, não pela paragem, mas pela exigência que está latente.

De repente todos somos convidados a meditar, a praticar exercício físico, a fazer… fazer mais, e continuar e tapar bem tapadinho para não vermos o que está lá bem no fundo de tudo isto.

Vejo crianças e adolescentes que têm de estar ocupados desde cedo até à noite correndo um risco qualquer, que se assim não for, não estamos a fazer o certo. A fazer novamente. A dualidade do errado e do certo. Fazer, fazer mais. Adultos preocupados em ocupar crianças, adultos preocupados em não lidar com a frustração das mesmas e com a sua própria.

Tenho já familiares infectados. Estão parados, à espera. À espera de amanhã, à espera de Amor, de compaixão, à espera de tudo o que a pressa não pode oferecer. Esta pressa que nos prende ao automático, ao vazio e a tudo o que já não nos serve como Humanidade.

Vejo gente forte, capaz, sem recursos de forma tácita e muda a dizer-nos que vão continuar a lutar pela nossa saúde, pela nossa comida na mesa, mesmo que para isso estejam fora das suas famílias exaustos e sem pressa.

E nós, que estamos em casa, com pressa. Pressa de fazer muito. Pressa de dizer a todos que não estamos parados. Pressa de fazer.

Pois a vida parece que nos está a informar que o fazer de pouco serve agora. Talvez o convite seja estarmos mais perto do ser, mais perto do que realmente somos enquanto Humanidade. Somos muito mais do que aquilo que fazemos. E é necessário neste tempo, apenas deixar vir a tristeza, o desanimo e saber que nem todos os dias vão ser assim e que haverá dias de alegria, coisas simples…e também dias de ânimo. Até que tudo isto volte a uma normalidade que não conhecemos, importa flexibilizar os dias, as agendas, os ritmos e criando espaço e ampliar o nosso dia tal como é, e não como gostaríamos que fosse. Experimente apenas deixar o seu dia fluir, sem expectativas, sem a tensão do sucesso ou insucesso. Não há nada para ganhar aqui. Apenas viver e acordar para esta nova forma de viver.  

Gentileza, suavidade, respeito pelos ritmos de cada de um nós e menos pressa. Talvez esta consciência nos ajude a olhar para cada dia que nasce exatamente na medida do que vai ser. Na sua impermanência, mas sempre um novo e fresco dia chegar.

4 comentários sobre “A pressa, o vírus e a vida como ela é.”

  1. Falámos muito recentemente e fiquei com saudades tuas. Pelos vistos é possível! 🙂
    Li o teu post e estou a pensar. E a sentir. Tive uma familiar com 102 anos que faleceu há poucos dias com a covid-19. Sinto apenas tristeza e não raiva. Sinto tristeza na doce lembrança de que ela foi uma pessoa que tinha alegria dentro e um sorriso contagiante por fora. E gostava de cantar, cantar o tudo e o nada. Canções que nunca foram do meu tempo. Ficava só a ouvir. Uma pessoa simples. Bem vivida. Que sorte tê-la conhecido e privar um pouquinho com ela em alguns Natais e outras reuniões da família. Sinto que partiu em paz, de missão cumprida.
    Acho que estava a precisar de pôr algumas palavras por escrito o que ia na alma.
    Obrigada pelo o teu texto. Ainda tenho de aprender muito sobre o desprender-me do que acho que tenho de ser e o que devia ser capaz de fazer. Continua a fazer o que fazes, porque é seres quem tu és. Ajudas muitos a ser também 🙂
    Beijinhos de quem adora o Mar também, com uma gratidão infinita que atravessa oceanos 😉

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